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Homens de bandeja

Martha Medeiros

Uma vez fui convidada para um coquetel na casa de uma pessoa que eu não conhecia. Questões profissionais, não podia faltar, fui. Blim-blom. Ao abrirem a porta, duas amigas vieram me receber e logo me apresentaram ao dono da casa e a mais três ou quatro pessoas que estavam por ali. Festival de beijinhos: todo mundo se cumprimentando alegremente. No meio do grupo, reparei num rapaz lindo, vestido de preto dos pés à cabeça, sorrindo para mim. Não tive dúvida, aproveitei o embalo e taquei-lhe um beijo também: oi, tudo bom? Ele me respondeu que estava tudo bem e em seguida me perguntou: a senhora bebe alguma coisa?

Admiro garçons. Não é um oficio fácil. Eles precisam atender gentilmente pessoas que muitas vezes são brutas ou arrogantes. Eles precisam almoçar ou jantar antes de todos, ou muito depois. Se trabalham em churrascaria, precisam saber cortar uma carne sem deixar pingar nem uma gota de sangue no colo do cliente. Se trabalham em boteco, precisam ter paciência com os bebuns. Precisam, todos, ser competentes equilibristas. Bons de memória. Rápidos. E agora essa: dependendo do emprego, precisam ser lindos de morrer.

Não é uma exigência usual, mas algumas casas noturnas e alguns eventos fechados estão contratando garçons que, além de saberem segurar uma bandeja, devem saber também como deixar uma cliente apatetada. Recentemente uma loja abriu suas portas e contratou verdadeiros apolos para servir champanha às mulheres. Homens altos, tatuados, bem definidos, com olhares maliciosos e sorrisos que impediam qualquer negativa: sim, eu quero champanha. Nunca bebi, mas vou beber. Alicinha, me segura que eu vou beber. Se eu fizer alguma besteira, por favor, amanhã de manhã, não me conta.

Mas nada sai errado. Na pior das hipóteses, você vai dar dois beijinhos no rapaz, confundindo-o com um convidado. O que pode ser considerado uma gafe, se você for muito presa as convenções, ou muito chique, se você for defensora da igualdade, liberdade e fraternidade. Garçom, traga um cálice pra mim e outro pra você. E santé!


Domingo, 22 de dezembro de 2002.



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